Análise da projeção continental do Brasil segundo Travassos, com foco no antagonismo Atlântico x Pacífico, na disputa Brasil-Argentina e na centralidade estratégica do Planalto Boliviano
A Teoria dos Eixos Geopolíticos Sul-Americanos, formulada por Mário Travassos ainda nas primeiras décadas do século XX, oferece um quadro para entender a dinâmica de poder no continente.
Travassos via a geografia como fator central da política, e defendia que a capacidade de transformar o território em instrumento de influência era determinante para a projeção dos Estados.
Conforme informação divulgada pelo Defesa em Foco, a obra Projeção Continental do Brasil sistematiza essas ideias e destaca a importância de corredores de circulação e da integração interior.
A ideia de projeção continental
Para Travassos, a projeção continental do Brasil não se explicaria por forças militares isoladas, mas pela articulação do espaço e pela infraestrutura que conecta litoral e interior.
Rios, ferrovias e estradas, segundo a análise, são os vetores reais do poder, pois moldam fluxos econômicos e logísticos que definem influência regional.
A ênfase está na capacidade do Estado de integrar seu território e dominar os eixos de circulação, convertendo extensão e posição atlântica em vantagem estratégica.
O antagonismo Atlântico x Pacífico
Um pilar da Teoria dos Eixos Geopolíticos Sul-Americanos é o antagonismo entre os sistemas Atlântico e Pacífico, que atravessa a história e a geografia do continente.
Travassos descreve o Atlântico como vinculado à Europa e ao comércio marítimo tradicional, enquanto o Pacífico se orienta para o mundo andino e, mais tarde, para a Ásia.
A Cordilheira dos Andes funciona como barreira natural, criando uma fragmentação que só pode ser enfrentada com eixos de comunicação leste-oeste capazes de cruzar o continente.
Brasil e Argentina, uma disputa estrutural
Segundo Travassos, a rivalidade entre Brasil e Argentina é menos militar direta e mais uma competição pela atração de áreas periféricas e pelo controle dos fluxos econômicos.
A Argentina consolidou influência a partir da Bacia do Prata e de sua tradição portuária, enquanto o Brasil, com maior extensão territorial e população, enfrentou desafios de integração interna.
O equilíbrio continental, na visão do autor, dependeria de quem melhor conectasse espaços interiores como Paraguai e Bolívia aos seus respectivos eixos de circulação.
O Planalto Boliviano como nó geopolítico
Na teoria, o Planalto Boliviano ocupa posição singular, entre as bacias Amazônica e Platina, e próximo a corredores naturais que conduzem ao Pacífico.
Controlar ou influenciar os fluxos que atravessam essa região significa influenciar o equilíbrio continental, sem necessariamente implicar dominação territorial.
Travassos defende presença estratégica, cooperação e infraestrutura que orientem os fluxos econômicos e logísticos, tornando a Bolívia peça-chave no tabuleiro sul-americano.
Atualidade e lições para o Brasil
A Teoria dos Eixos Geopolíticos Sul-Americanos permanece atual diante de projetos de corredores bioceânicos, integração energética e da presença crescente de atores extra-regionais.
Para o Brasil, a lição central é que a projeção continental exige integração interna, infraestrutura estratégica e planejamento de longo prazo para conectar litoral e interior.
Revisitar Travassos ajuda a compreender que a geopolítica sul-americana se define nos eixos de circulação, mais do que apenas nas capitais ou nos portos, e orienta debates atuais sobre soberania logística e articulação regional.


