Retirada de emergência do Batalhão Suez em junho de 1967, a evacuação pelo Navio de Transporte Soares Dutra, a única baixa brasileira e a influência na doutrina de operações de paz
Batalhão Suez era a designação do contingente brasileiro enviado à Força de Emergência das Nações Unidas, a UNEF, responsável por patrulhas na Faixa de Gaza e nas fronteiras entre Egito e Israel.
Em junho de 1967, com o início da Guerra dos Seis Dias, os mais de 430 militares brasileiros que ainda permaneciam na área ficaram cercados, sob bombardeios e sem condições de sair pela via terrestre, o que exigiu uma evacuação naval coordenada.
A operação de retirada, embarque e retorno ao Brasil ocorreu a bordo do Navio de Transporte Soares Dutra, em uma ação marcada por tensão, improviso e disciplina militar, conforme informação divulgada pelo Defesa em Foco.
A missão brasileira na UNEF e a construção do Batalhão Suez
A participação do Brasil na UNEF começou em 1957, depois da crise do Canal de Suez, e se estendeu por uma década, com cerca de 6.300 militares distribuídos em vinte contingentes sucessivos, segundo relatos históricos sobre a missão.
O trabalho brasileiro incluía patrulhamento, observação do cessar-fogo e ações humanitárias, o que consolidou a imagem do país como parceiro das operações internacionais de paz e gerou laços profundos com a população da Faixa de Gaza.
Durante os anos de atuação, os soldados brasileiros ficaram conhecidos pela proximidade com civis locais, a ponto de áreas próximas ao destacamento serem apelidadas de “Al-Brazil” pela população palestina.
O cerco em junho de 1967 e a necessidade de evacuação
Nos dias que antecederam a guerra, a UNEF foi retirada de áreas controladas pelo Egito, mas problemas logísticos impediram a saída organizada do contingente brasileiro, deixando o Batalhão Suez vulnerável ao início das hostilidades.
Na manhã de 5 de junho de 1967, a ofensiva israelense transformou a missão de observação em um cenário de combate, com ataques aéreos, artilharia e deslocamento rápido de tropas, o que tornou a permanência dos observadores extremamente perigosa.
Espalhados em posições como Rafah, na fronteira com o Egito, os militares brasileiros tiveram de se abrigar e preparar uma retirada emergencial, enquanto as comunicações e os acessos se tornavam cada vez mais precários.
O resgate pelo Soares Dutra e os riscos da operação
Com a escalada do conflito, o governo brasileiro articulou a evacuação por via naval. O Navio de Transporte Soares Dutra foi designado para recolher os militares, operação que exigiu coordenação entre Brasília, as Nações Unidas e autoridades locais.
O deslocamento dos postos até os pontos de embarque teve de transpor áreas sujeitas a confrontos, sob risco contínuo de bombardeios, o que tornou a ação um exercício de logística em condições de guerra.
Relatos de veteranos destacam que a disciplina e o preparo da tropa foram decisivos para o sucesso do embarque, minimizando perdas adicionais e permitindo o retorno organizado ao território nacional.
A morte do cabo Carlos Adalberto Ilha de Macedo e o impacto na tropa
A perda mais sentida pelo contingente foi a do Cabo Carlos Adalberto Ilha de Macedo, atingido durante os preparativos de retirada, numa ação que ilustraria o custo humano da missão brasileira na Guerra dos Seis Dias.
Segundo relatos preservados pelos veteranos, Ilha havia voltado à lavanderia do campo para buscar documentos pessoais e não retornou, sendo encontrado ferido, levado para a enfermaria e, infelizmente, não resistindo aos ferimentos.
O corpo foi inicialmente sepultado de forma improvisada dentro do Campo Brasil, em local protegido, e depois exumado para o retorno ao Brasil, em um processo conduzido com a participação dos próprios companheiros, segundo memórias dos integrantes.
Legado operacional e memória do Batalhão Suez
A experiência do Batalhão Suez influenciou a doutrina brasileira de operações de paz, contribuindo para a formação de capacidades em logística multinacional, proteção de civis e coordenação em ambiente culturalmente complexo.
Décadas depois, os ensinamentos adquiridos na Faixa de Gaza foram aplicados em conflitos e missões da ONU em várias regiões, ajudando a consolidar a reputação das Forças Armadas brasileiras em operações internacionais.
A preservação da memória do Batalhão Suez tem sido feita por veteranos, pesquisadores e arquivos militares, e a história da retirada em 1967 permanece como exemplo de coragem, profissionalismo e resiliência, conforme informação divulgada pelo Defesa em Foco.
O resgate pelo Soares Dutra e a narrativa da improvisação, da perda e do retorno mostram que missões de paz podem transformar-se em cenários de combate, e que a preparação e a disciplina são fatores decisivos para salvar vidas e preservar legados.


