Entenda o processo que eleva o teor de urânio-235, as reservas brasileiras, a produção em Resende e a fiscalização por ANSN, AIEA e ABACC
O Brasil domina uma das etapas mais sensíveis do ciclo do combustível nuclear, o enriquecimento de urânio, capacidade que reduz dependência externa e fortalece a segurança energética.
A tecnologia empregada em Resende foi desenvolvida pela Marinha do Brasil e por institutos nacionais, e tornou possível produzir combustível para as usinas de Angra.
Nos parágrafos a seguir, explicamos como funciona o processo de ultracentrifugação, quem desenvolveu a técnica, quais são as garantias de uso pacífico e quais os impactos para o futuro energético do país, conforme informação divulgada pelo Defesa em Foco.
Como ocorre o enriquecimento de urânio
O urânio encontrado na natureza possui cerca de 0,7% do isótopo urânio-235, responsável pela reação de fissão utilizada nos reatores nucleares. Para ser empregado na geração de energia elétrica, essa concentração precisa ser elevada para aproximadamente 3% a 5%.
No Brasil, o método adotado é a ultracentrifugação, em que o urânio é convertido em gás, o hexafluoreto de urânio, UF6, e alimenta cilindros que giram em altíssima velocidade. A força centrífuga faz com que os isótopos mais leves se concentrem em uma parte do fluxo, enquanto os mais pesados ficam em outra.
O efeito de separação de cada ultracentrífuga é pequeno, por isso centenas de máquinas são interligadas em cascatas. Assim, a concentração de urânio-235 é aumentada gradualmente até atingir o nível requerido para os elementos combustíveis das usinas.
Desenvolvimento, transferência e eficiência tecnológica
A ultracentrifugação brasileira foi desenvolvida pelo então Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares. O desenvolvimento dessa capacidade foi oficialmente reconhecido em 1987, quando o Brasil anunciou ter dominado a tecnologia de enriquecimento por ultracentrifugação.
A tecnologia foi transferida para as Indústrias Nucleares do Brasil, a INB, e aplicada em escala industrial na unidade de Resende, no Rio de Janeiro. As características do processo nacional incluem elevada eficiência energética, ausência de reagentes químicos durante o enriquecimento e praticamente nenhuma geração de resíduos líquidos ou gasosos.
Essas condições tornam o enriquecimento de urânio nacional não só uma alternativa ao mercado externo, como um ativo tecnológico para projetos futuros, como reatores modulares de pequeno porte, produção de hidrogênio limpo e aplicações médicas e industriais.
Produção em Resende, atendimento a Angra e metas de autossuficiência
A Fábrica de Combustível Nuclear da INB em Resende produz urânio enriquecido para a fabricação dos elementos combustíveis de Angra 1 e Angra 2, e deverá atender também à demanda de Angra 3. A usina vem sendo ampliada com novas cascatas de ultracentrífugas.
Com a entrada em operação da décima cascata, a capacidade instalada passou a atender aproximadamente 70% da necessidade de urânio enriquecido para uma recarga de Angra 1. A meta de longo prazo é alcançar a autossuficiência nacional no fornecimento do combustível para todo o parque nuclear brasileiro, reduzindo ainda mais a dependência de serviços contratados no exterior.
Além do domínio tecnológico, o Brasil conta com um importante patrimônio mineral, com reservas de urânio identificadas principalmente na Bahia e no Ceará, o que amplia a base para expansão da geração nuclear.
Fiscalização internacional e importância estratégica
O enriquecimento de urânio no Brasil está submetido a um rigoroso regime de salvaguardas. A atividade é fiscalizada pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, pela Agência Internacional de Energia Atômica, e pela Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares.
Esse modelo de controle assegura que todo o material produzido seja destinado exclusivamente a fins pacíficos, como geração de energia elétrica, pesquisa científica, medicina nuclear e desenvolvimento tecnológico. O Brasil também é signatário dos principais acordos internacionais de não proliferação nuclear.
O domínio desta tecnologia, aliado às reservas minerais e ao sistema de fiscalização, torna o enriquecimento de urânio uma competência estratégica, chave para a soberania tecnológica e para a segurança energética do país nas próximas décadas.


