domingo
22 fevereiro

Facções criminosas na Amazônia Legal avançam sobre territórios, PCC e Comando Vermelho ampliam controle e ameaçam comunidades tradicionais e o meio ambiente, diz FBSP

A interiorização do crime organizado eleva homicídios, sobrepõe narcotráfico a crimes ambientais, expande influência em municípios e trava agenda de desenvolvimento sustentável

A presença de facções criminosas na Amazônia deixou de ser um fenômeno exclusivo das grandes capitais e se espalhou rapidamente pela Amazônia Legal, com impactos diretos sobre comunidades tradicionais e atividades produtivas.

O avanço revela não apenas disputa por rotas de transporte e recursos, como também uma sobreposição entre narcotráfico e crimes ambientais, que aumenta a capacidade financeira e militar desses grupos.

As mudanças na dinâmica da segurança pública na região colocam em risco fiscais, trabalhadores rurais e povos indígenas, e dificultam qualquer projeto de desenvolvimento sustentável enquanto o domínio territorial persistir,

conforme estudo “Cartografias da Violência na Amazônia”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)

Expansão territorial e aumento da letalidade

O levantamento mostra que o número de municípios sob influência de facções saltou de 178 em 2023 para 344 em 2025, um crescimento que evidencia a consolidação do crime organizado no interior da região.

A taxa de homicídios na Amazônia Legal chegou a 27,3 assassinatos por 100 mil habitantes, índice 31% superior à média nacional, e o estado do Amapá lidera o ranking de violência no país, o que reflete fragilidade institucional e disputa por rotas estratégicas.

Grupos como o PCC e o Comando Vermelho ampliaram sua presença, e a interiorização do crime altera a dinâmica da segurança pública, exigindo resposta coordenada entre União, estados e forças federais.

Narcotráfico e crimes ambientais em sintonia

O estudo aponta que garimpo ilegal, grilagem de terras e desmatamento passaram a compartilhar rotas logísticas e estruturas de proteção armada com o narcotráfico.

Segundo os pesquisadores, as mesmas aeronaves e estruturas utilizadas para escoar ouro extraído ilegalmente também transportam drogas, ampliando o poder financeiro e territorial das facções e dificultando a atuação de órgãos de controle ambiental.

Essa sobreposição eleva o risco para fiscais ambientais, trabalhadores rurais e comunidades tradicionais, que enfrentam organizações com capacidade armada e articulação interestadual.

Impacto social e vulnerabilidade das comunidades

O avanço das facções produz efeitos sociais profundos, com relatos de aliciamento de jovens indígenas, especialmente entre 12 e 16 anos, para o microtráfico, além do aumento do consumo de drogas pesadas dentro das aldeias.

Outro dado alarmante é que a taxa de estupros na Amazônia Legal, 36,8% superior à média nacional, e o domínio territorial das facções inibe denúncias e compromete o acesso das vítimas à proteção estatal.

O diagnóstico do estudo é contundente, não há transição viável para bioeconomia ou desenvolvimento sustentável na região sem enfrentar o gargalo da Segurança Pública, e a estabilização do território tornou-se condição prévia para qualquer estratégia de crescimento sustentável na Amazônia.

Resposta necessária e desafios institucionais

Especialistas ouvidos pelo estudo defendem ação articulada entre União, estados e forças federais, com investimentos em inteligência, proteção a comunidades e reforço da presença estatal em áreas remotas.

Sem uma resposta coordenada, a expansão das facções criminosas na Amazônia tende a aprofundar a violência, ampliar a exploração ilegal de recursos e inviabilizar políticas de desenvolvimento com foco ambiental e social.

O enfrentamento exige medidas simultâneas de segurança, fiscalização ambiental e políticas sociais para reduzir a vulnerabilidade de jovens e comunidades tradicionais frente à ação das organizações criminosas.

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