Gripe Espanhola na DNOG revelou como saúde, água e habitabilidade podem decidir a eficácia de uma força naval em operação, com elevados índices de mortalidade e contágio
Em 1918, a Divisão Naval em Operações de Guerra, enviada pela Marinha do Brasil ao teatro de operações no noroeste da África, foi atingida por um surto de influenza que comprometeu sua capacidade operacional.
Tripulações inteiras ficaram doentes em poucos dias, homens foram enterrados em Dacar e navios tiveram de ser recolhidos ao Brasil por falta de efetivo, enquanto a batalha principal no horizonte era contra um inimigo invisível.
O peso desses eventos e dos números que descrevem as perdas está registrado em fontes oficiais e em um estudo que analisou documentos do Arquivo da Marinha, conforme estudo publicado na Navigator.
A viagem da DNOG e o surto a bordo
A DNOG, sob o comando do Contra-Almirante Pedro Max Fernando de Frontin, deixou o Rio de Janeiro em maio de 1918 e chegou a Freetown, Serra Leoa, em 9 de agosto, permanecendo na região até 23 de agosto, com alguns navios seguindo para Dacar em 26 de agosto para descanso e reparos.
Foi nesse contexto que, pouco depois da chegada em Dacar, a pandemia atingiu as tripulações, em um surto de rápida disseminação. O estudo registra que, em alguns navios, cerca de 90% da tripulação foi infectada. Muitos dos militares que morreram foram enterrados em Dacar.
Altas taxas de mortalidade e números oficiais
Um estudo publicado na Navigator, com base em documentos oficiais do Arquivo da Marinha, analisou a mortalidade da DNOG e identificou 157 mortes entre os 1.531 tripulantes considerados na pesquisa. Desse total, 125 mortes, ou 8,2%, foram oficialmente atribuídas à influenza.
Quando são incluídas as mortes por influenza e aquelas provocadas por outras causas, o total chega a 157 óbitos, equivalentes a 10,2% da força analisada. Entre as demais causas registradas estavam doenças como beribéri e malária, além de acidentes a bordo.
O destróier Parahyba apresentou aproximadamente 14% de mortalidade atribuída à pandemia, a maior taxa registrada entre as unidades analisadas. No Santa Catharina, a mortalidade pela influenza chegou a aproximadamente 13%, enquanto a mortalidade total por influenza e outras causas alcançou cerca de 18% da tripulação. O estudo classifica as taxas observadas nos destróieres Parahyba e Santa Catharina como as maiores taxas de mortalidade reportadas em qualquer navio de guerra durante a Primeira Guerra Mundial até então conhecidas pelos autores.
Ao analisar ocupações a bordo, os pesquisadores encontraram que, entre os foguistas, aproximadamente 10,8% morreram pela influenza. Entre os marinheiros, a taxa foi de 7,7%, enquanto entre os oficiais chegou a 6,8%. Considerando influenza e demais causas, a mortalidade dos foguistas alcançou 14,7%. A análise estatística apontou uma associação entre as condições de trabalho nas praças de máquinas e o risco de morte pela pandemia, identificando que, entre aqueles que trabalhavam nesses espaços, a probabilidade de morrer por influenza foi 1,57 vez maior, independentemente do posto ocupado.
Fatores que agravaram a crise, água e ambientes fechados
As condições a bordo favoreciam a transmissão. Espaços restritos, pouca possibilidade de isolamento, alojamentos lotados e escassez crônica de água potável dificultavam medidas básicas de higiene e a segregação de doentes.
As praças de máquinas eram ambientes críticos, com fumaça, pó de carvão, calor intenso e jornadas longas, fatores que podem ter comprometido condições respiratórias e aumentado a vulnerabilidade dos trabalhadores a um agente respiratório grave.
A redução do número de homens saudáveis também comprometeu manutenção, limpeza, cozinha e conservação de equipamentos, agravando a capacidade de enfrentar a emergência médica e operacional.
Lições para defesa e memória
A experiência da DNOG demonstra que uma força militar pode ser severamente degradada sem combates, quando saúde operacional, logística e habitabilidade falham. Cerca de 10% das tripulações precisaram ser enviadas de volta ao Brasil após adoecerem, reduzindo pessoal disponível para tarefas essenciais.
Mais de cem anos depois, os dados da DNOG permanecem relevantes para estudos de Defesa, porque mostram como fatores sanitários e de trabalho podem ditar a prontidão das forças. A história da divisão é, portanto, registro de perdas, resiliência e da importância de condições adequadas para preservar o efetivo.


