A construção da geoestratégia brasileira no século XX deslocou o olhar do litoral para o interior, priorizou a Amazônia e articulou segurança e desenvolvimento como pilares do Estado
Três oficiais da Força Expedicionária Brasileira, Mário Travassos, Carlos de Meira Mattos e Golbery do Couto e Silva, formaram uma linha de pensamento que reorganizou a visão estratégica sobre o território nacional.
A leitura desses autores avançou da projeção continental para a consolidação interna e, finalmente, para uma visão sistêmica da segurança e do planejamento estatal.
Este texto descreve as contribuições de cada um, mostra como a geoestratégia brasileira se diferenciou das matrizes estrangeiras e aponta implicações para os desafios contemporâneos de soberania e defesa,
conforme informação divulgada pelo eBlog do Exército Brasileiro.
Travassos, a projeção continental e os eixos de circulação
Mário Travassos, em Projeção continental do Brasil, de 1935, foi pioneiro ao deslocar o centro da análise estratégica do litoral para o interior sul-americano.
Ao estudar eixos de circulação e ligações interoceânicas, Travassos ressaltou que a capacidade de estruturar fluxos traduz a extensão territorial em influência política e estratégica.
Para ele, a integração espacial não era apenas uma questão econômica, era a base da projeção regional do Brasil, e mesmo sem a tecnologia contemporânea, já se via a geografia como um instrumento de coordenação do poder.
Meira Mattos e a Amazônia como núcleo sensível da soberania
Carlos de Meira Mattos aprofundou essa matriz ao deslocar o foco para a Amazônia, ao longo das décadas de 1970 e 1980.
Em obras como Geopolítica e destino (1975) e Uma geopolítica pan-amazônica (1980), ele tratou a região como elemento estruturador da soberania nacional, e não como periferia.
Meira Mattos defendeu que ocupação planejada, infraestrutura e presença institucional na Amazônia são simultaneamente estratégias de desenvolvimento e medidas de defesa.
Essa ênfase transformou a Amazônia em eixo central da geoestratégia brasileira, integrando políticas públicas, integração territorial e salvaguarda das fronteiras.
Golbery e a sistematização da segurança nacional
Golbery do Couto e Silva ampliou ainda mais o olhar, ao inserir variáveis políticas, econômicas e psicossociais na análise estratégica, a partir de sua obra Geopolítica do Brasil, 1967.
Ao conceber o Estado como um sistema, Golbery deslocou o debate da centralidade exclusiva do espaço para a coordenação institucional, planejamento e coesão,
fazendo da segurança uma função integrada ao desenvolvimento e à organização estatal, e não somente uma reação a ameaças externas.
Essa visão sistemática consolidou uma tradição nacional que articula presença estatal, capacidade organizacional e estratégias intersetoriais.
Continuidade, originalidade e desafios contemporâneos
A trajetória que conecta Travassos, Meira Mattos e Golbery revela um movimento progressivo de ampliação conceitual, do continental ao sistêmico.
Esses autores não reproduziram mecanicamente matrizes estrangeiras, como as de Mackinder, Mahan e Spykman, mas as reinterpretaram em função das especificidades brasileiras, incluindo a posição atlântica e as fronteiras internas extensas,
construindo, nas palavras da fonte consultada, uma tradição própria: “A dimensão continental do País, a centralidade amazônica e a necessidade de integração nacional moldaram, assim, uma tradição própria de geoestratégia, ancorada na articulação entre espaço, poder e organização estatal.”
Essa frase foi publicada conforme informação divulgada pelo eBlog do Exército Brasileiro.
Hoje, a geoestratégia brasileira permanece relevante para debates sobre autonomia estratégica, proteção de biomas, governança fronteiriça e articulação interinstitucional.
Integrar desenvolvimento e segurança continua a ser desafio prático e intelectual, exigindo investimento em infraestrutura, presença estatal contínua e coordenação entre setores civis e militares.
Ao revisitar Travassos, Meira Mattos e Golbery, políticos e estrategistas podem extrair elementos para políticas que combinem presença territorial, coesão institucional e projeção internacional,
mantendo a ênfase na Amazônia e na integração continental como vetores centrais da geoestratégia brasileira.


