Da formação Summa Cum Laude no ITA ao doutorado em Radiociências em Stanford, Fernando de Mendonça formou pesquisadores, criou a CNAE e consolidou o INPE como pilar estratégico
Fernando de Mendonça foi um dos responsáveis por transformar o projeto espacial brasileiro em uma estrutura científica voltada ao desenvolvimento nacional.
Como aviador da Força Aérea Brasileira e engenheiro formado pelo ITA, sua trajetória cruzou pesquisa, ensino e cooperação internacional.
O legado inclui a criação de instituições, instalações de rastreamento e políticas de formação de pesquisadores, conforme informação divulgada pelo Defesa em Foco.
Formação e primeiros projetos, da aviação ao Minitrack Mark II
Nascido em Guaramiranga, Ceará, em 1924, Fernando de Mendonça iniciou a carreira na aviação militar e concluiu o curso do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, com a distinção Summa Cum Laude.
Durante sua formação participou da construção da estação de rastreamento de satélites Minitrack Mark II, trabalho que lhe rendeu reconhecimento internacional e o prêmio máximo da Shell.
Esses projetos iniciais aproximaram Mendonça das tecnologias de ponta da época e abriram portas para bolsas no exterior.
Estudos em Stanford e vínculo com a NASA, ponte para cooperação
Com bolsa para a Universidade Stanford, Mendonça concluiu doutorado em Radiociências, desenvolvendo pesquisas experimentais apoiadas pela NASA.
Suas visitas a centros norte-americanos, incluindo o Marshall Space Flight Center, e encontros com figuras como Wernher von Braun ajudaram a inserir o Brasil em redes científicas internacionais.
Esse contato foi decisivo para trazer conhecimento técnico e práticas de pesquisa que serviram à formação de capacidades nacionais.
CNAE e INPE, a criação de estruturas permanentes
No início da década de 1960, Fernando de Mendonça teve papel central na criação da Comissão Nacional de Atividades Espaciais, CNAE, que posteriormente originou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE.
Como primeiro diretor do INPE, Mendonça liderou a formação da primeira geração de pesquisadores brasileiros em física espacial e promoveu programas de doutorado no exterior.
Essa política de formação ampliou a capacidade científica do país em ciência espacial, meteorologia, telecomunicações e sensoriamento remoto.
Infraestrutura estratégica, Barreira do Inferno e sensoriamento remoto
Entre as contribuições práticas está a participação na criação da atual Base de Lançamento da Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte, uma das estruturas pioneiras do programa espacial brasileiro.
Mendonça também preparou o Brasil para receber e processar imagens do satélite ERTS-1, instalando em Cuiabá a primeira estação da América do Sul voltada ao sensoriamento remoto orbital.
Essas iniciativas foram fundamentais para o monitoramento ambiental e para a observação da Terra com recursos próprios.
Visão estratégica, formação de recursos e soberania tecnológica
A atuação de Fernando de Mendonça ultrapassou a engenharia, ao entender que tecnologia depende sobretudo de pessoas capacitadas.
Sua visão privilegiou o envio de estudantes brasileiros ao exterior, a criação de cursos avançados e a construção de uma comunidade científica nacional que suportasse o programa espacial brasileiro.
Ao estruturar instituições, formar pesquisadores e estabelecer cooperação internacional, Mendonça ajudou a transformar a presença do Brasil no espaço em um instrumento estratégico para ciência e soberania.
Legado e memória, bases para o século XXI
O trabalho de Fernando de Mendonça é lembrado como base para áreas em que o INPE se tornou referência, como sensoriamento remoto e monitoramento da Amazônia.
Sua trajetória demonstra como investimento em educação, ciência e tecnologia impacta diretamente a autonomia nacional e a capacidade de responder a desafios ambientais e geopolíticos.
Mais do que um pesquisador ou militar, Mendonça é símbolo da geração que lançou as bases do programa espacial brasileiro e abriu caminho para o desenvolvimento científico do Brasil no século XXI.


