BEST testa ímã toroidal de 582 toneladas, metas até 2027 e geração elétrica por volta de 2030, enquanto Hélio-3 lunar reacende a corrida espacial
O programa chinês de fusão nuclear avança com a montagem final do Burning Plasma Experimental Superconducting Tokamak, conhecido como BEST, em Hefei.
Engenheiros concluíram testes de um ímã toroidal recorde e projetam concluir a obra até o final de 2027, com meta de gerar eletricidade por volta de 2030.
Os dados e marcos citados foram divulgados pela Academia Chinesa de Ciências e pela cobertura do Global Times, conforme informação divulgada pela Academia Chinesa de Ciências e pelo Global Times.
Como o BEST funciona e por que os superímãs REBCO são decisivos
Um tokamak confina um plasma a mais de 100 milhões de graus Celsius usando campos magnéticos, porque nenhum material suporta contato direto com essa temperatura.
No BEST, a nova geração de ímãs usa fitas supercondutoras de alta temperatura REBCO, compostas por óxidos de cobre e bário com elemento de terra rara, permitindo campos magnéticos muito mais intensos em volumes compactos.
Em 27 de junho de 2026, o Instituto de Física de Plasma testou um ímã toroidal de 582 toneladas, que mede 21 metros de comprimento, 12 metros de largura e 3,3 metros de altura, armazena 6,03 megajoules e opera com corrente estável de 60 quiloampères, segundo relatórios do CGTN e do Global Times.
Esse desempenho supera, em volume e energia armazenada, níveis reportados para os ímãs do ITER, e se apoia na propriedade das fitas REBCO de manter a supercondutividade a temperaturas próximas de 20 kelvin, o que simplifica a criogenia e possibilita campos da ordem de dezenas de teslas.
Materiais críticos, cadeia produtiva e a vantagem chinesa
O BEST é um mosaico de materiais críticos, entre eles ítrio, gadolínio, disprósio e térbio nas fitas REBCO e nos ímãs permanentes auxiliares, lítio para a manta regeneradora, tungstênio e berílio nas superfícies expostas ao plasma, e ligas de nióbio para outras bobinas.
A China concentra, conforme levantamentos citados na literatura técnica, cerca de 70% da mineração mundial de terras raras, entre 90% e 91% da capacidade global de refino, e controlava aproximadamente 94% da produção mundial de ímãs de terras raras pesadas em 2024, dados reportados por The Diplomat e Discovery Alert.
Essa cadeia verticalizada, que vai da mineração ao produto final, dá ao país vantagem para produzir internamente desde a fibra supercondutora até a estrutura metálica, reduzindo dependências externas e acelerando o desenvolvimento do setor de fusão nuclear.
Hélio-3 lunar, promessa energética e limites práticos
Além de deutério e trítio, o isótopo Hélio-3 é apontado como combustível potencial para reatores de fusão mais limpos, por ser aneutrônico e produzir menos ativação radioativa dos materiais do reator.
Na Terra, estima-se que existam hoje apenas cerca de cem quilogramas de Hélio-3 disponíveis globalmente, em grande parte derivado de estoques militares de trítio, segundo relatórios científicos e técnicos citados pela NASA e por fontes do setor.
Já a Lua recebeu vento solar por bilhões de anos e acumula Hélio-3 no regolito, com estimativas de reservas da ordem de mais de um milhão de toneladas métricas e concentrações médias estimadas entre quatro e vinte partes por bilhão, conforme estudos citados pelo IFRI e pela NASA.
Esses números, porém, escondem um obstáculo prático, porque extrair uma tonelada de Hélio-3 exigiria escavar e processar centenas de milhões de toneladas de solo lunar, o que torna a viabilidade econômica atualmente questionável, argumento presente em análises como as do New Space Economy e de críticos como Frank Close.
Impactos estratégicos, aplicações e riscos para a sociedade
Se a meta chinesa se confirmar, a fusão nuclear poderia fornecer uma fonte de energia praticamente inesgotável e de baixa emissão, com impacto direto na segurança energética e na descarbonização, especialmente para uma China ainda dependente do carvão.
Além da energia, a engenharia de ímãs REBCO gera spillovers para áreas como ressonância magnética, aceleradores e propulsão espacial, conforme especialistas do MIT e publicações do setor, ampliando o alcance industrial das inovações do BEST.
Por outro lado, há riscos e desafios, desde a necessidade de mantos regeneradores eficientes em lítio, até a gestão de nêutrons, criogenia e escalabilidade comercial, sem contar debates sobre segurança, memória de acidentes nucleares passados e a segurança frente a eventos naturais e falhas humanas.
Em síntese, o avanço do BEST representa um marco de engenharia e de política industrial, ao mesmo tempo que realimenta, por vias distintas, a competição global pela Lua e por materiais críticos, como o Hélio-3, lítio e terras raras, elementos centrais para a próxima fase da geopolítica energética mundial.


