Cenário Militar de Defesa 2028–2050 terá grupo para identificar tendências tecnológicas, atores e variáveis estratégicas que podem afetar a atuação das Forças Armadas até meados do século
O Ministério da Defesa instituiu um grupo de trabalho para elaborar o Cenário Militar de Defesa 2028–2050, com o objetivo de mapear tendências, incertezas e mudanças que poderão afetar o emprego das Forças Armadas nas próximas décadas.
O documento não pretende prever o futuro, mas fornecer instrumentos para que o Estado brasileiro lide com futuros possíveis, e não representa uma decisão antecipada sobre aquisições ou combates, segundo a portaria que criou o grupo.
O trabalho inicial será breve, mas o processo completo segue até 2027, e envolverá análise multidisciplinar sobre tecnologia, geografia, indústria e relações internacionais, conforme informação divulgada pelo Defesa em Foco.
Portaria, prazos e objetivos
A iniciativa foi formalizada pela Portaria GM-MD nº 4.363, de 24 de agosto de 2026, assinada pelo ministro José Múcio Monteiro Filho, e publicada no Diário Oficial da União em 27 de agosto. A portaria determina que o novo cenário deverá analisar contextos, atores, variáveis e informações capazes de afetar o emprego das Forças Armadas no cumprimento de suas atribuições constitucionais.
O coordenador do grupo tem prazo curto para começar, ele deverá submeter ao Chefe de Assuntos Estratégicos do EMCFA a metodologia, o cronograma e o escopo das atividades em até 15 dias da publicação da portaria. O prazo final para entrega do relatório com a proposta do cenário é 15 de dezembro de 2027, com possibilidade de prorrogação mediante solicitação do coordenador e ato do Chefe de Assuntos Estratégicos.
Composição, participação e processo
O grupo de trabalho terá 18 integrantes, doze provenientes da administração central do Ministério da Defesa e seis distribuídos igualmente entre as três Forças, dois da Marinha, dois do Exército e dois da Aeronáutica, cada um com um suplente. A composição inclui representantes da Assessoria Especial de Planejamento, do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, e da Secretaria de Produtos de Defesa.
A portaria autoriza a participação de especialistas civis e militares convidados, e prevê oficinas temáticas para aprofundar temas específicos. Essa abertura é considerada essencial, já que transformações relevantes podem surgir em áreas como computação, energia, telecomunicações, indústria e ciência.
Tecnologias, incertezas e horizonte 2050
Tecnologias como drones, inteligência artificial, guerra cibernética, sistemas autônomos e operações no espaço ajudam a dimensionar o desafio do planejamento até 2050. Sistemas não tripulados e avanços em sensores, comunicações e defesa cibernética aceleram a coleta e o uso de informações em operações militares.
O documento busca avaliar possibilidades de futuro, lembrando que algumas tecnologias consideradas emergentes hoje podem atingir níveis de maturidade distintos até meados do século, enquanto novas capacidades ainda desconhecidas poderão surgir. Assim, construir um cenário não equivale a listar equipamentos a serem adquiridos, mas a permitir revisão do planejamento conforme as ameaças e oportunidades evoluam.
Geografia, capacidades e Base Industrial de Defesa
O estudo leva em conta a realidade brasileira, que inclui cerca de 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres, uma extensa fachada atlântica, grande território e espaço aéreo de dimensões continentais, além dos interesses na Amazônia Azul. Essas características moldam prioridades como vigilância de fronteiras, proteção do Atlântico Sul, defesa aérea e mobilidade estratégica.
Para a Base Industrial de Defesa, a participação da Secretaria de Produtos de Defesa no grupo indica que o cenário poderá orientar decisões futuras sobre pesquisa, formação de pessoal, desenvolvimento industrial, cooperação internacional ou aquisição no exterior. A portaria afirma que “O CMD deverá construir conhecimento sobre possibilidades de atuação e hipóteses de emprego, orientando o Setor de Defesa na identificação e construção de capacidades militares”, sinalizando a relação entre prospecção estratégica e as etapas subsequentes de política, programas e orçamento.
O desafio do planejamento de longo prazo é que capacidades complexas demandam anos entre concepção e plena disponibilidade operacional, e equipamentos militares podem permanecer em serviço por décadas, o que exige antecipação para evitar que as Forças sejam preparadas apenas para problemas do passado.


