Construção naval exige planejamento de longo prazo, garantias financeiras e crédito competitivo para modernizar estaleiros, ampliar investimentos e fortalecer a indústria naval brasileira
A discussão sobre a recuperação da construção naval brasileira voltou ao centro do debate público após reação do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore, o Sinaval, a críticas sobre a competitividade dos estaleiros nacionais.
O sindicato afirma que o problema não está na capacidade técnica da indústria, e sim na ausência de uma política de Estado contínua e previsível, capaz de garantir encomendas, crédito e estabilidade regulatória para investimentos de longo prazo.
Para o setor, a construção naval conecta soberania, inovação e emprego, e precisa de instrumentos públicos semelhantes aos usados por potências do setor, segundo a entidade.
Conforme informação divulgada pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval).
Planejamento de longo prazo e lições de países líderes
O Sinaval ressalta que nenhum dos atuais líderes mundiais da indústria naval alcançou competitividade de forma espontânea, e cita que Japão, Coreia do Sul e China levaram décadas para consolidar suas capacidades por meio de políticas industriais, financiamento direcionado e planejamento estratégico.
A entidade cita estudos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e de outros organismos internacionais para mostrar que governos mantêm programas específicos para o setor, e destaca iniciativas como a K-Shipbuilding Strategy e a Super Gap Vision 2040 na Coreia do Sul.
Segundo o sindicato, programas públicos costumam combinar incentivos à inovação, apoio à exportação, financiamento e investimentos em pesquisa e desenvolvimento, medidas que criam previsibilidade para investimentos de alto risco.
Geração de empregos e efeito multiplicador
Além do caráter estratégico, a construção naval tem forte capacidade de geração de empregos e dinamização econômica local, por demandar engenharia, aço, equipamentos e mão de obra especializada.
Em números citados pela entidade, cada vaga criada diretamente em estaleiros pode gerar aproximadamente cinco empregos adicionais em fornecedores, logística, serviços industriais e treinamento profissional, um efeito importante para regiões com cadeias produtivas ligadas ao mar.
O Sinaval também destaca que o setor contribui para a formação de mão de obra qualificada em áreas como engenharia naval, metalurgia, automação e soldagem especializada.
Custo Brasil e entraves à competitividade
Entre os obstáculos, o sindicato aponta o chamado Custo Brasil como um dos principais fatores que encarecem a produção, e lista as dificuldades que afetam os estaleiros.
Segundo a entidade, fatores como elevada carga tributária, burocracia, custos logísticos, dificuldades de acesso ao crédito, insegurança jurídica e instabilidade regulatória aumentam os custos e reduzem a atratividade de investimentos de longo prazo.
Para o Sinaval, essas barreiras não se relacionam à capacidade técnica dos estaleiros, e sim ao ambiente econômico e institucional em que as empresas atuam.
Soberania, defesa e a escolha de política industrial
Ao longo da nota, o sindicato reforça que navios, plataformas e infraestrutura marítima são ativos estratégicos que tocam defesa, segurança energética e autonomia tecnológica, e que o país precisa optar entre dependência externa e consolidação de uma base industrial marítima própria.
Na avaliação do Sinaval, fortalecer a construção naval significa investir simultaneamente em emprego, tecnologia, arrecadação, inovação, defesa e soberania, e exige medidas públicas para dar previsibilidade às encomendas e acesso a crédito competitivo.
A entidade conclui que políticas públicas estáveis e instrumentos de financiamento específicos são condições para que estaleiros brasileiros aumentem sua capacidade produtiva, modernizem instalações e participem de mercados internacionais.


