Como a América Latina prosperar aproveitando recursos naturais, capital humano e cooperação regional, enquanto se adapta à regionalização do comércio, à inteligência artificial e às mudanças climáticas
Uma comissão convocada pela CEPAL entregou um diagnóstico abrangente sobre como mudanças no cenário global afetam o futuro da região.
O relatório, intitulado “Rupturas e oportunidades: propostas para que a América Latina e o Caribe prosperem na nova era geopolítica”, reúne recomendações para governos, setor produtivo e sociedade civil.
O estudo foi elaborado por uma Comissão de Alto Nível convocada pela CEPAL em 2024 e apresentado em 4 de agosto de 2026, conforme informação divulgada pela CEPAL.
Oito rupturas que redesenham a geopolítica
A Comissão identifica oito rupturas que estão mudando o funcionamento da economia internacional e das relações entre Estados, entre elas disputas entre grandes potências, a reconfiguração da globalização e a transição para um ambiente multipolar.
O relatório aponta ainda a erosão do multilateralismo e das instituições globais, a transformação do soft power, o avanço da polarização política e do retrocesso democrático, a disseminação da desinformação potencializada pela inteligência artificial, o enfraquecimento da agenda de igualdade e inclusão, e a redução do consenso internacional sobre mudanças climáticas.
Segundo os autores, essas rupturas geram riscos, mas também abrem espaços para que a região reposicione suas vantagens no cenário mundial.
Ativos estratégicos para ampliar protagonismo
O estudo destaca que a região dispõe de ativos estratégicos relevantes, entre eles abundância de recursos naturais estratégicos, capacidade produtiva, capital humano e um grande mercado consumidor.
Outro ponto ressaltado é a tradição de cooperação regional e a condição de região livre de armas nucleares, além da ausência de guerras entre Estados, o que é destacado como um ativo diplomático em tempos de maior instabilidade internacional.
A CEPAL também valoriza ativos intangíveis, como diversidade cultural, capacidade científica e criatividade, elementos que podem fortalecer o poder brando da região, se convertidos em políticas e investimentos coordenados.
Dez recomendações e os três eixos estratégicos
O relatório organiza suas propostas em dez recomendações agrupadas em três eixos estratégicos. O primeiro busca mobilizar ativos econômicos, naturais, tecnológicos e humanos para impulsionar crescimento, inovação e produtividade.
O segundo eixo enfatiza o fortalecimento da governança democrática, a qualidade das instituições públicas e a capacidade de formular políticas de Estado diante das mudanças globais.
O terceiro propõe ampliar a capacidade de atuação internacional por meio de cooperação regional, diversificação de alianças estratégicas e maior participação em organismos multilaterais.
Para o secretário-executivo da CEPAL, José Manuel Salazar-Xirinachs, a principal mensagem do documento é que “o mundo mudou” e que a região precisa adaptar suas estratégias para transformar esse novo contexto em desenvolvimento sustentável e maior protagonismo internacional.
Implicações para o Brasil, Defesa e agenda climática
Embora tenha foco econômico e institucional, o relatório dialoga diretamente com questões de segurança, infraestrutura crítica e autonomia tecnológica, temas centrais também para a agenda de Defesa.
O texto alerta para os impactos da inteligência artificial na produtividade, no emprego e na segurança da informação, e para os riscos da desinformação e da crise de confiança nas instituições, que podem afetar a qualidade da democracia.
Além disso, enfatiza a necessidade de manter compromissos climáticos, dado que a região abriga ativos ambientais globais, como biodiversidade, florestas e potencial para energias renováveis, fatores essenciais para que a América Latina prosperar de forma sustentável.
Segundo a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, copresidente da Comissão, a região dispõe de riquezas naturais, industriais e humanas suficientes para construir nova trajetória de desenvolvimento, desde que transforme esse potencial em políticas concretas.
O relatório oferece um roteiro de curto e longo prazo para que países da região aproveitem oportunidades e mitiguem riscos, e reafirma a necessidade de coordenação, instituições sólidas e políticas públicas de longo prazo para que a América Latina prosperar na nova era geopolítica.
Com informações da CEPAL e materiais da ONU.


